18 set 2015

DICA DE LEITURA: A SOCIEDADE DO CUSTO MARGINAL ZERO

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Consegue imaginar um mundo em que as relações sociais prevaleçam sobre as relações financeiras? 

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As regras do jogo da economia estão mudando. E não estou falando das medidas de contenção e arrecadação do nosso governo, mas sim de transformações sociais que apontam megatendências que modificarão nosso jeito de viver e consumir.

A previsão provocativa é do americano Jeremy Rifkin, que acaba de publicar seu novo livro "The Zero Marginal Cost Society" ("A Sociedade do Custo Marginal Zero", em tradução livre).

lounge-empreendedor-sociedade-com-custo-marginal-zeroO título pode parecer grego para não economistas, mas o princípio é muito simples: à medida que penetramos na sociedade do conhecimento e na economia criativa, o eixo de análise econômica se desloca. O surgimento da Internet das Coisas – das Comunicações, da Energia e dos Transportes – está convergindo para a criação de uma rede global com estrutura inteligente e indissolúvel e tem acelerado a produtividade e reduzido o custo marginal de produzir e distribuir unidades adicionais de bens e serviços – descontados os custos fixos – a praticamente zero, tornando-os essencialmente gratuitos.

Como resultado, o lucro corporativo começa a secar, os direitos de propriedade perdem força e a noção convencional de escassez econômica dá lugar à possibilidade de abundância à medida que setores inteiros da economia ingressam na web com custo marginal zero.  Algo que André Gorz chama de economia imaterial em que o principal fator de produção, o conhecimento, uma vez produzido, pode ser difundido de forma ilimitada e gratuita por todo o planeta, com custo zero.

Isso inverte completamente o sentido do capitalismo: levar cada aspecto da vida humana para a área econômica, transformando em uma mercadoria que será negociada como um bem. Ao longo do tempo, quase nenhuma necessidade humana escapou dessa transformação. A comida que comemos, a água que bebemos, os artefatos que produzimos e usamos, as relações sociais em que nos envolvemos, as ideias que trazemos à luz, o tempo que gastamos… Tudo reorganizado, precificado e levado ao mercado de forma individualizada.

Para Rifkin, caminhamos para a criação de uma economia mundial híbrida onde um sistema colaborativo estará convivendo com um capitalismo cada vez menos importante. Mercados estão começando a dar lugar a redes, a posse está se tornando menos importante do que o acesso, a busca do interesse próprio está sendo moderada pela pressão de interesses colaborativos e o tradicional sonho de enriquecimento financeiro está sendo suplantado pelo sonho de uma qualidade de vida sustentável que impulsiona novos negócios e oportunidades de empreender.

o desafio atual é garantir a segurança dos dados e a proteção do sigilo pessoal em um mundo aberto, transparente e conectado globalmente.

Não se trata aqui apenas de compartilhar uma música com os amigos, ou de colocar um filme no Youtube. Rifkin nos traz centenas de exemplos na área das finanças, com inúmeras redes peer-to-peer (P2P) permitindo fluxos financeiros entre quem tem recursos parados e quem deles precisa, escapando aos juros e tarifas escorchantes dos intermediários financeiros.

Aliás, Rifkin disponibiliza o conteúdo do seu livro online. No plano mais amplo, ao difundir sua compreensão acerca dos mecanismos econômicos está contribuindo para o nível educacional da sociedade, e pontualmente também para o bem-estar de todos. Estará perdendo dinheiro? Na realidade amplia a sua visibilidade, e ganhará mais com os convites que recebe. No novo modelo de ciclo econômico baseado em conhecimento e com forma imaterial, precisamos equilibrar as tarefas remuneradas e as colaborativas, sabendo que à medida em que o conhecimento se torna o fator de produção mais importante do planeta, a dimensão não diretamente remunerada se amplia. São os novos equilíbrios em construção.

Por isso, a Internet das Coisas (IoT na sigla em inglês), permitirá conectar todos e tudo em um novo paradigma econômico que é muito mais complexo do que a Primeira e Segunda Revoluções Industriais, mas cuja arquitetura é distribuída em vez de centralizada. “Mais importante ainda, a nova economia irá otimizar o bem-estar geral por meio de redes integradas lateralmente na esfera dos bens comuns colaborativos (Collaborative Commons), em vez de empresas integradas verticalmente no mercado capitalista”.

Na visão de Rifkin, a rápida expansão desta nova economia leva a uma possibilidade de escaparmos do poder dos gigantes da intermediação e da filosofia da guerra econômica de todos contra todos, expandindo progressivamente os espaços de colaboração direta entre os agentes econômicos ao mesmo tempo produtores e consumidores, os famosos “prosumers”. A face mais óbvia do futuro descrito por Rifkin são hoje os sites de compartilhamento de carros e casas, como o Airbnb. Nesses novos tipos de transações, o acesso é mais importante que a posse e o capital social vale mais que o capital financeiro.

Entendo que isso pareça totalmente inverossímil para a maioria das pessoas, de tão condicionados que nos tornamos à crença de que o capitalismo é tão indispensável para nosso bem-estar quanto o ar que respiramos. Embora os indicadores da grande transformação para um novo sistema econômico ainda sejam suaves e, em grande parte, anedóticos, a economia de compartilhamento está em ascensão e, torço para que em 2050, tenha se estabelecido como principal árbitro da vida econômica mundial.

Otimismo exagerado?

Talvez, mas o que tiramos de muito útil do livro não é saber se o futuro será mais ou menos cor de rosa, mas uma compreensão muito aprofundada das oportunidades que surgem para uma economia mais humana. A realidade é que há uma outra economia/sociedade em construção, e entender os mecanismos, além de instrutivo, é profundamente agradável.

SOBRE O AUTOR:

JEREMY RIFKIN é um dos pensadores sociais mais populares da atualidade, é autor de 20 best-sellers traduzidos para 35 idiomas. Rifkin é consultor para a União Europeia e para chefes de estado ao redor do mundo, além de palestrante do programa de educação executiva da Wharton School da Universidade da Pensilvânia.

 

28 jul 2015

RIO 2016: QUAL O PROPÓSITO DISSO TUDO?

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Legado ou aprendizado? Como podemos aprender com as Olimpíadas?

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Como ex-atleta de natação que gravava as competições para ficar horas analisando a técnica dos grandes nadadores, pensando em como eu poderia melhorar, fico ansioso só de imaginar a grande migração de pessoas para um único lugar e todos envolvidos no espírito olímpico: Citius, Altius, Fortius (mais rápido, mais alto e mais forte). Competir com honra, respeito e determinação. Foi esse espírito e pensamento que me tornou um apaixonado pelo desenvolvimento humano. O esporte é um palco em que podemos aprender muito e levar isso para nossa vida. 

Os Jogos Olímpicos, se não for o maior, com certeza é um dos maiores eventos do mundo e faltam menos de 400 dias para a abertura oficial. Serão mais de 10 mil atletas de 205 países, que disputarão 306 medalhas durante 17 dias, sendo 136 provas femininas, 161 masculinas e 9 mistas. As competições serão disputadas em 33 locais de provas, a organização contará com 45 mil voluntários, 85 mil funcionários terceirizados e 8 mil funcionários, ou seja, não só os atletas se preparam, a cidade sede e toda nação brasileira também, e é esse tema que vamos explorar.

Em relação aos gastos, uma das principais preocupações dos brasileiros, segundo o portal Rio 2016 foram investidos R$ 7.4 bilhões até agora. Desse valor são provenientes: 40% de patrocinadores locais, 25% contribuição do COI, 16% da venda de ingressos, 12% de patrocinadores internacionais e 7% de licenciamentos e receitas diversas. Esse valor foi e será investido em despesas operacionais do evento (credenciamento, alimentação, seleção e treinamento, despesas médicas), tecnologia (resultados oficiais através de sistemas e softwares, 7 mil pontos Wi-Fi, infraestrutura para transmissão, telecomunicações, servidores, segurança dos sistemas, telões), competições e cerimônias (1 milhão de equipamentos esportivos, 832 eventos olímpicos e paraolímpicos, 4 grandes cerimônias), acomodações (34 mil quartos), transportes (deslocamentos com 5 mil veículos, 2 mil ônibus, 4500 motoristas, 26 milhões de km rodados).

Mas e o legado urbanístico de desenvolvimento para a cidade? Isso foi e continua sendo muito falado e explorado por políticos e cartolas do esporte. Recentemente Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, disse que o Rio deixará Barcelona no chinelo. A cidade é referência no assunto de legado esportivo em Jogos Olímpicos. Mais de duas décadas após a Olimpíada de Barcelona, hoje a cidade é irreconhecível para aqueles que a conheciam antes. A principal modificação foi na área portuária, antes praticamente esquecida e hoje é o metro quadrado mais disputado da cidade. Os quatro núcleos que concentraram as instalações esportivas dos Jogos foram conectados por quase 50 Km de novas vias que durante os Jogos facilitaram a circulação das pessoas e após aliviou o tráfego. Barcelona se tornou pólo de negócios, um dos destinos mais cobiçados por turistas (o número de visitantes mais que dobrou na década seguinte), o aeroporto se modernizou e cresceu, além de outros benefícios difíceis de serem mensurados como influência, diversidade e charme.

Londres em 2012 também teve um legado importante. A área industrial foi revitalizada começando pela descontaminação do solo, um trabalho de quatro anos a um custo de R$ 230 milhões, que levou a limpeza de 2 milhões de toneladas de solo descontaminado dos resíduos tóxicos. Um detalhe interessante: algumas instalações esportivas de Londres foram feitas para serem totalmente transportadas para outros lugares, não se tornando um elefante branco na cidade e tendo seu valor justificado pelo uso completo da estrutura. O que não aconteceu com algumas instalações de Barcelona, por exemplo o parque aquático e o estádio, que estão obsoletos e mal cuidados. Em parte, pela crise econômica, e o que os espanhóis juram que será revertido assim que a situação melhorar.

E o que o coaching tem a ver com tudo isso? Vivemos em um mundo sistêmico onde o bater das asas de uma borboleta aqui pode causar um furacão no Japão (efeito borboleta). Mas parando para pensar no que isso reflete em nós. Quantas vezes aguardamos um evento, um fato, uma situação que venha mudar nossas vidas? Dizemos coisas como: quando eu tiver um cargo de liderança, quando eu casar, quando eu tiver um salário melhor, quando eu me mudar para tal lugar. E às vezes quando essas coisas chegam não temos o ímpeto ou a força necessária para implementar a mudança real.

Será que o Rio conseguirá melhorar o trânsito? Revitalizar áreas degradadas? Limpar a Baía de Guanabara? Analisando esse processo pela perspectiva do coaching podemos perceber que falta muito planejamento, cumprimento dos prazos estabelecidos (ou falta de coerência ao se os estabelecer), não há um objetivo claro e bem definido (apenas dizer que haverá um legado é pouco específico, que tipo de legado queremos deixar?). Talvez vale a reflexão: qual o propósito disso tudo?

*Alexandre Nakandakari – É sócio da Questão de Coaching, com formação em Educação Física com especialização em Treinamento Desportivo, Practitioner PNL e analista de Assessment DISC. 

 
 
 
 
11 abr 2014

FAÇA VOCÊ MESMO

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Cinco razões para acreditar que o movimento “faça você mesmo” é o refinamento e evolução da gambiarra.

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"Quem nunca?" Quase sempre que escuto alguém fazer essa pergunta eu a completo mentalmente com uma das minhas experiências de adolescência: quem nunca fez uma gambiarra? Não me refiro à gambiarra elétrica especificamente, mas aos meus arroubos de MacGyver, quando por necessidade ou por puro tédio me lançava em uma façanha criativa para salvar o planeta do caos. Quem nunca usou um livro para apoiar a cama, consertou chinelo com tachinha ou fez um churrasco na churrasqueira de latão de óleo?

Mas o que tudo isso tem a ver com a volta do “faça você mesmo”? Estamos vivendo um dos momentos mais significativos da economia criativa e o mercado tem percebido de forma cada vez mais clara as possibilidades advindas da cultura do “faça você mesmo”. Vejamos então cinco razões para acreditarmos que a gambiarra está em voga, de cara nova e que tem valor de mercado:

  1. O consumidor assumiu de vez o seu lado de prosumer, uma combinação das palavras, em inglês, producer e consumer, o que significa que o cliente declara-se totalmente à vontade para ter uma participação ativa na produção daquilo que consome. De kits para fazer refrigerante em casa até a montagem do próprio celular, o mercado oferece todos os insumos para os nossos momentos Gepetto. E cobra bem caro por isso!
  2. As impressoras 3D estão mais baratas e dessa forma vem impulsionando os setores de design, moda, modelagem e educação. De certa maneira, já podemos dizer que descobrimos um jeito para imprimir nossos pensamentos e desejos. Em uma jogada de marketing campeã, uma famosa marca de chocolates e doces oferecerá aos seus consumidores a possibilidade de imprimir a sua própria barra de chocolate e doces. Já imaginaram? Eu já!
  3. Hackear nunca esteve em situação tão favorável. Diferentemente dos crackers, que tem motivações nada generosas, os hackers são arquétipos da engenhosidade. Eventos conhecidos como Hackathons reúnem profissionais que se propõe a solucionar enigmas e bugs, em um ritmo parecido ao de uma maratona. A promoção de tais encontros tornou-se corriqueira na rotina de muitas empresas, que contam com o talento de seus usuários para refinar seus produtos de uma forma ágil e barata.
  4. A popularização dos dispositivos móveis e o aumento do índice de penetração da banda larga nos tornam testemunhas do crescimento exponencial da produção de conteúdo midiático. Somos todos criadores, consumidores e reprodutores de conteúdo. Recentemente a Vimeo lançou um fundo especial, bem apreciável, para incentivar a produção de conteúdo independente por jovens artistas. De verdade, só espero que o vencedor não seja um viral de gatinhos cantores.
  5. O mercado de trabalho clama por histórias de protagonismo. O pensamento do ‘cresça e apareça’ desbotou, e agora a prática é: apareça e cresça. Quanto mais proativo você for, maior a chance de sucesso.

Assim como a gambiarra, o novo comportamento de botar a mão na massa pode ser apenas temporário. No entanto, é sem dúvida uma cultura que tem a cara da inovação e que promete mexer com os nossos hábitos de consumo e produção.

E aí, o que você vai criar hoje?

*************

Giselle Santos é formada em Marketing, pós-graduanda em Gestão Estratégica de Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual. Atua como Coordenadora Acadêmica na Cultura Inglesa RJ/DF/GO/RS e é membro do Painel de Especialistas em Inovação do Horizon Report K12 2014.

13 mar 2014

EMPRESAS E CARNAVAL: UMA MISTURA QUE DÁ SAMBA

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O patrocínio de escolas de samba por empresas gera polêmica, mas traz as agremiações para outro padrão de gestão e de qualidade nos desfiles.

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Por Jorge Abrahão*

Não foi sem polêmicas que o patrocínio pelas empresas na cultura e no esporte conquistou espaço aqui no Brasil. Um dos últimos redutos que ainda faltavam nas planilhas de marketing dos executivos era o carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Na verdade, desde a inauguração do Sambódromo carioca, em 1984, e do paulistano, em 1991, e com a transmissão ao vivo pela TV para canais internacionais, o desfile das escolas de samba, especialmente as do Rio de Janeiro, tornou-se um espetáculo global. Por isso, os carnavalescos, muitas vezes atendendo pedidos das próprias escolas, inventam carros alegóricos, adereços e fantasias cada vez mais luxuosos e complexos. Isso exige dinheiro e a verba pública destinada a cada agremiação não cobre as despesas.

A venda de fantasias para turistas, gente de fora da escola – outro motivo de polêmica –, também não vinha suprindo as necessidades de caixa, porque o regulamento da Liga das Escolas de Samba estabeleceu um limite para esse tipo de participante.

O aporte de recursos feito por bicheiros e chefes do tráfico também foi ficando impossível, na mesma medida em que a festa se globalizava e atraía a atenção da imprensa e de milhões de telespectadores de centenas de países.

Então, o jeito foi apelar para as empresas. E, para fazer isso, as escolas de samba precisaram mudar. Primeiro, a gestão. Tiveram de ter uma organização mínima, com uma área administrativo-financeira, documentação em ordem, funcionários regulares e uma planilha de custos para apresentar os números do enredo que justificasse o pedido de patrocínio.

As resistências foram grandes nas próprias empresas e entre os sambistas e pessoas ligadas ao samba e aos meios culturais.

Do lado das companhias, havia a apreensão de associar o nome da marca ou mesmo da empresa a uma agremiação cujos dirigentes poderiam, depois, estar nas páginas policiais. Do lado das escolas de samba, o medo era perder simpatizantes e gente da comunidade, pessoas que durante o ano fazem o imprescindível trabalho voluntário que garante o samba na rua, ainda que haja centenas de trabalhadores pagos para as tarefas mais especializadas. Também havia o receio de que o patrocinador quisesse interferir no ritmo da bateria, ditar a organização das alas e mandar na letra da música.

No entanto, parece que as arestas foram aparadas e, desde o ano 2000, as empresas vêm apoiando com quantias variadas as escolas de samba não só do Rio, mas de São Paulo e de outras cidades do país.

Regra para o patrocínio das escolas

Tanto no Rio quanto em São Paulo, o regulamento das ligas que representam as escolas impede a apresentação de marcas ou qualquer tipo de merchandising implícito ou explícito na passarela. Mas eles podem vir mencionados nas letras dos sambas-enredos ou nos títulos. Isso já aconteceu em São Paulo, por exemplo. Em 2009, a Rosas de Ouro veio com o enredo “O Cacau é Show”, patrocinada pela marca Cacau Show.

Embora as empresas não interfiram na escolha dos temas, a tendência das escolas tem sido, cada vez mais, escolher sambas que atraiam patrocínio. Assim, no carnaval deste ano, o Salgueiro levou para a avenida um enredo sobre sustentabilidade, tendo, por isso, conseguido o patrocínio da Renault/Nissan, entre outras empresas. Já a Unidos da Tijuca, que se sagrou campeã ao homenagear o piloto Ayrton Senna, teve como patrocinadores a Shell, a Audi, a Credicard e a Gillette.

No ano passado, a campeã do carnaval carioca foi a Unidos de Vila Isabel, com o enredo “A Vila Canta o Brasil, Celeiro do Mundo – Água no Feijão Que Chegou Mais Um”, que exaltou a agricultura brasileira, com o patrocínio da Basf. A vice-campeã foi a Beija-Flor, com um enredo que falou do cavalo manga-larga marchador, patrocinada pela Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Manga-larga Marchador.

Para os especialistas, os patrocínios privados trouxeram novo patamar ao carnaval e devem evoluir mais, pois carnaval é uma das maiores manifestações culturais do Brasil e precisa da colaboração das empresas.

Patrocínio coletivo

Nem empresas, nem escolas revelam o montante investido nos desfiles, ao longo desses anos, e o legado deixado para as comunidades das escolas, além do carnaval. Por isso, vale a pena refletir sobre o modelo de patrocínio que a tradicionalíssima Mangueira lançou em 7 de fevereiro último.

Anunciado como “o maior patrocínio da história do carnaval”, o modelo foi apresentado numa coletiva de imprensa no barracão da escola. Trata-se de um projeto inovador de captação de recursos pela internet, chamado “Patrocinador Apaixonado”.

Por meio de uma plataforma virtual, pessoas físicas, microempresas, médias e grandes empresas poderão fazer doações em dinheiro para a Mangueira, sem quantias ou periodicidades pré-definidas.

A verba arrecada será direcionada para custear o desfile da escola no Grupo Especial e da escola mirim – a Mangueira do Amanhã –, os avanços tecnológicos, as reformas e a manutenção da quadra, do barracão e das demais instalações da escola, bem como dos diversos projetos sociais da comunidade. Dos recursos captados, 4% ficarão retidos para pagar impostos.

A Mangueira também vai contar com as verbas da Liga das Escolas de Samba e da Prefeitura do Rio. Mas, esse dinheiro não é suficiente para cobrir as despesas nem mesmo do desfile. Então, em vez de bater na porta das empresas em busca de patrocínio, a escola resolveu apostar na paixão que desperta em milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. Uma pesquisa revelou que há pelo menos 30 milhões de mangueirenses no Brasil e em vários países dispostos a colaborar financeiramente com projetos ligados à Verde e Rosa.

A escola promete trabalhar de maneira transparente, divulgando balanços das contribuições a cada seis meses, especificando a aplicação delas.

O primeiro doador ao projeto foi o passista Carlinhos de Jesus, que contribuiu com R$ 300,00.

Esse modelo é único no cenário do carnaval e muito pouco usado ainda no Brasil entre aqueles que precisam arrecadar dinheiro para realizar projetos. É o chamado crowdfunding, um financiamento para além da necessidade imediata, vinculado a uma “causa”.

Enfim, o carnaval também nos leva a refletir sobre o papel das empresas. Elas devem simplesmente patrocinar a agremiação, exigir contrapartidas de sustentabilidade ou interferir nos enredos? E por que não informam as quantias investidas nas escolas? Esses patrocínios afastam as escolas da comunidade? O crowdfunding da Mangueira é um modo de manter o vínculo e direcionar o dinheiro para todos e não apenas para o carnaval?

É para refletir.

Quem quiser conhecer melhor o modelo de financiamento da Mangueira pode acessar o site
http://mangueira.patrocinadorapaixonado.com.br/.


* Jorge Abrahão é diretor-presidente do Instituto Ethos.

01 mar 2014

O SAMBA DA ECONOMIA

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Carnaval não é apenas festa ou descanso. O período gera emprego e renda para diferentes regiões do Brasil e a cadeia produtiva envolve diferentes setores da economia.

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Além dos feriados e datas comemorativas que tradicionalmente movimentam a economia, como o Natal ou Dia das Mães, o Carnaval esquenta cada vez mais o ritmo de atividades das pequenas empresas brasileiras.

O momento valoriza a singularidade, o simbólico e aquilo que é mais intangível: a criatividade. Incomodo-me quando ouço afirmações que tratam do carnaval como apenas a economia do jogo do bicho, da lavagem de dinheiro ou do tráfico de drogas. Carnaval é bem mais do que isso! Cidades criativas, indústrias criativas, economia criativa. Você já ouviu falar sobre coisas assim? Não há empresa, nos dias de hoje, que não coloque a criatividade entre os seus fatores de competitividade.

Entre modismo, ingenuidade ou ações reais, o que vale é perceber o impacto da inovação nos vários segmentos da economia. Os desafios da construção de novos modelos de negócios e de uma sociedade mais sustentável trazem para a economia criativa uma nova frente de empreendedorismo e oportunidades.

Fatores competitivos intrínsecos, como redução no custo ou avanços específicos na tecnologia da informação, somente podem ser superados pela inteligência de novos processos e novas tecnologias. Este é o caminho a ser trilhado tanto por países desenvolvidos, quanto por países em desenvolvimento.

O Carnaval paulistano, por exemplo, gera mais de 4,3 mil empregos diretos e indiretos e movimenta aproximadamente R$ 90 milhões ao ano, segundo o Censo do Samba. Símbolo do carnaval brasileiro, o tradicional desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro movimentou, em 2010, cerca de R$ 1,2 bilhão e gerou mais de duzentos mil empregos. Quem assiste ao espetáculo de quatro dias muitas vezes não supõe que a sua realização envolve desde o trabalho de soldadores no barracão das agremiações ao de executivos da indústria fonográfica, passando por bordadeiras, motoristas de ônibus e pilotos de companhias aéreas, técnicos vindos de Parintins (AM) e especialistas na fabricação de instrumentos musicais, entre muitos outros.

Apenas a produção de bordados para fantasias rendeu ao município de Barra Mansa, a cem quilômetros da capital fluminense, R$ 53,4 milhões em 2006, o equivalente a aproximadamente 4,5% do PIB local. Os números (que constam do estudo “Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval”) revelam a necessidade de encarar o carnaval não somente dos pontos de vista histórico e antropológico, mas também sob o enfoque dos negócios.

O modelo é o mesmo: as escolas escolhem o enredo, definem o samba, desenham carros alegóricos e fantasias e, em menos de um ano, colocam tudo isso na avenida com a emoção e o comprometimento de toda a comunidade. Se as chuvas ou o fogo destroem tudo, não há porque desanimar. Existe uma causa que norteia as decisões do grupo e faz com que todos arregacem as mangas para recomeçar.

Quem tem mais sucesso? Aquele que conseguir ser mais criativo.

Intuitivamente, o Carnaval leva empreendedores a desenvolver sua capacidade não só de criar o novo, mas de reinventar, diluir paradigmas tradicionais, unir pontos aparentemente desconexos e, com isso, equacionar soluções para novos e velhos problemas.

A "concorrência" entre vários atores criativos, em vez de saturar o mercado, atrai e estimula a atuação de empresas, poder público e sociedade. Juntos, todos torcem pelo sucesso da maior festa onde contextos culturais, econômicos e sociais diferentes se misturam e tornam-se um.

Entre o universo simbólico do Carnaval e o mundo concreto da economia, a criatividade é o catalisador do valor capaz de gerar desenvolvimento. Fortalecer espaços de economia criativa é uma oportunidade de resgatar o cidadão e o consumidor através daquilo que os faz comum e que emana de suas próprias raízes. 

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